sexta-feira, 31 de julho de 2015

Pirangi e Florestal: Duas estações, dois destinos

No início deste ano o Projeto Memória Ferroviária de Pernambuco empreendeu mais algumas expedições pelo estado para fazer o resgate da memória ferroviária de Pernambuco. Duas das estações visitadas, ambas na Linha Sul de Pernambuco, na Zona da Mata Sul, tendo sido as duas inauguradas no ano de 1894, há 111 anos, são o tema desta postagem. A primeira dessas duas estações é Pirangi, uma pequena estação ferroviária localizada a margem do rio de mesmo nome, nas terras da Usina Pirangi. Fica nos limites do município de Palmares. A segunda estação visitada, fica a 38 km de Pirangi. É a Estação de Florestal, no município de Maraial, nas terras do antigo Engenho Florestal.
Embora a uma certa distância uma da outra, Pirangi e Florestal foram duas das muitas estações implantadas nas linhas férreas tronco, nas zonas rurais de municípios pernambucanos, justificadas pela economia açucareira, ora pela existência de uma usina ou engenho que, por ferrovia, escoava sua produção para o Recife. Era também por meio destas pequenas estações que as comunidades que geralmente se desenvolviam no entorno dessas indústrias, mantinham comunicação com as cidades. Em 1862 a Recife and São Francisco Railway chegava a povoação de Una, que viria a originar a atual cidade de Palmares. Daí, em 1882, a Estrada de Ferro Sul de Pernambuco, partindo da Estação de Palmares (Una, à época), inaugurou o trecho até Catende. trecho esse em que doze anos depois seria inaugurada a Estação de Pirangi, a 25 de Agosto de 1894.
Em 1885 a Estrada de Ferro Sul de Pernambuco inaugurava o Túnel de Maraial, cerca de um quilômetro após a Estação de Maraial, e em Janeiro de 1885 era inaugurada a Estação de Quipapá. A cerca de três quilômetros da Estação de Maraial, em Dezembro de 1894, foi inaugurada a Estação de Florestal.
Como pode-se perceber, as Estações de Pirangi e Florestal foram implantadas anos depois da chegada dos trilhos em seus lugares. E, como dito, tendo as duas praticamente a mesma idade de inauguração (111 anos), no entanto a situação das duas é bastante oposta. Começando pela Estação Pirangi, foi uma surpresa bastante gratificante encontrá-la de pé.
Usina Pirangi. (Acervo pessoal - Janeiro/ 2015)
A povoação de mesmo nome localiza-se a poucos quilômetros do centro de Palmares, uma povoação simples e de muitas casas que aparentam ter mais de meio século. A Usina Pirangi, desativada há mais de 10 anos, resiste em suas ruínas a margem do rio. Na outra margem, está o casarão da Usina e a Estação Ferroviária de Pirangi. A ponte que dava acesso ao outro lado do rio foi destruída por enchentes e o acesso à estação tem de ser feito por balsa. Logo após atravessar o Pirangi, em um nível mais alto, está a pequena Estação.
Pirangi, uma raridade. (Acervo pessoal - Janeiro/ 2015)

 Uma raridade encravada na Zona da Mata Sul. Ainda conserva o telhado original, cobertura da plataforma, os dísticos trazendo o nome da Estação ainda com a grafia antiga "Pirangy"e a cor tradicional amarela com detalhes em branco e vermelho. A plataforma também se encontra praticamente intacta. A fixação para os isoladores dos fios da rede telegráfica ainda se encontra em uma das paredes. Portas e janelas ainda em seus lugares. A edificação hoje utilizada como depósito de uma das casas vizinhas, é um verdadeiro símbolo de resistência, tendo em vista sua localização e a boa situação em que se encontra. Numa colina, de frente para a Estação, o casarão da Usina, também bem conservado ainda serve de moradia.
Trilhos cobertos pelo mato, e os restos da plataforma e cobertura
da Estação Florestal. (Acervo pessoal - Janeiro/ 2015)
Em situação totalmente oposta encontra-se a Estação de Florestal, ou melhor, o que sobrou dela. O acesso a Estação é pelo Centro de Maraial. A estrada de barro que leva ao povoado corta a Linha Sul algumas vezes. A beleza do lugar é inquestionável, com muitos caminhos de água e serras verdes. A poucos metros do lugar da Estação nos deparamos com uma enorme caixa d'água de ferro, utilizada para o abastecimento das locomotivas a vapor, nos tempos que as "vaporosas" cortavam a Mata Sul pernambucana. Avistamos uma placa de quilometragem da via férrea e logo chegamos ao local. Infelizmente da Estação pouco sobrou, além da própria linha férrea, as ruínas da plataforma e alguns elementos de ferro de sustentação da cobertura da plataforma. Lamentável. Postes da rede telegráfica ainda resistindo completam o cenário. O local da estação está tomado pelo mato.
Do acervo do seu João Estêvão, imagem da Estação Florestal possivelmente entre
os anos 1950/ 1960.
Nas proximidades há algumas casas que aparentam ser bastante antigas, dentre as quais está a residência do senhor João Estêvão, filho do João Estêvão de Azevedo, que foi chefe da Estação de Florestal durante vários anos.
Seu João Estêvão mostra como funciona a lanterna
que ele até hoje guarda, utilizada na Estação de Florestal
(Acervo pessoal - Janeiro/ 2015)
Ele nos contou que a casa foi construída por seu avô, português que trabalhou na construção da Estrada de Ferro Sul do Pernambuco, no fim do século XIX. Seu João relembrou o movimento dos trens na estação, recordando dos trens carregados de açúcar que cruzavam o lugar e dos trens de passageiros Recife - Maceió. Além de uma valiosa fotografia antiga da Estação de Florestal, ele guarda a lanterna de sinalização manual utilizada na estação , e em ótimo estado de conservação. Em seu quintal está também uma velha balança de origem inglesa que foi utilizada na Estação. Ele lamenta a estação ter sido demolida após sua desativação, destino cruel de muitas outras estações pelo estado de Pernambuco.


 



Veja outras imagens:

Trilhos da Linha Sul e Estação Ferroviária de Pirangi. (Acervo pessoal - Janeiro/ 2015)

O dístico com a grafia "Pirangy" e acima a fixação para os isoladores de linha telegráfica. (Acervo pessoal - Janeiro/ 2015)
Os trilhos seguem para Maceió, diante da solitária plataforma de Pirangi. (Acervo pessoal - Janeiro/ 2015)


Caixa d'água nas proximidades de Florestal, para abastecimento
de locomotivas a vapor. (Acervo pessoal - Janeiro/ 2015)

Linha Sul tomada pelo mato e a caixa d'água de ferro com base em alvenaria. (Acervo pessoal - Janeiro/ 2015)

Nas proximidades Estação Florestal, a placa do km 163. (Acervo pessoal - Janeiro/ 2015) 


Esse elemento de sustentação da cobertura da plataforma da Estação de Florestal
foi um dos poucos vestígios que restaram. (Acervo pessoal - Janeiro/ 2015)
A balança da Estação Florestal. (Acervo pessoal - Janeiro/ 2015)




4 comentários:

  1. Show de bola essas expedições, gostaria de ver essas relíquias de perto. Parabéns pelo trabalho!

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  2. relíquias devem ser guardas em lugar seguro ,na chuva e no sol vira sucata ,lixo zelem !

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  3. O patriarca desta família, começa com o Sr. Antônio Estevão de Azevedo *1863 +1903 casou com Antônia natural de Maraial (Português natural do Minho em Portugal), Era o Tradutor do Inglês para o Português contratado pela empresa construtora da rede ferroviária, logo engraçou-se por uma nativa e se encravou na região, na construção do túnel escapou de morrer por no minimo duas vezes, por motivo de desabamento, motivo principal de ter deixado de trabalhar na "rede", casou e teve vários filhos e filhas, que foram em busca de trabalho no sul do país, ficou o filho caçula chamado... João Estevão de Azevedo 20/06/1895 que mais tarde casou com Alcina Ferreira de Azevedo 30/01/1908, com quem teve cinco filhos e filhas... Maria José Estevão de Azevedo 18/05/1924; João Estevão de Azevedo Filho (Zito)24/06/1925; Luzinete Estevão de Azevedo 09/10/1926; Dulcenea Estevão de Azevedo 03/03/1930; e por Ultimo José Arnaldo Estevão de Azevedo 23/09/1937...E este por ultimo manteve ate o ano de 1981 tanto a estação Ferroviária, bem como o cemitério, a Igreja e os demais imoveis do engenho, depois meu pai se desapegou e foi morar em uma fazenda no município Canhotinho - PE ate sua morte em 27/07/2005, relato esta historia como testemunha viva, pois hoje estou com 51 anos e sou filho de José Arnaldo estevão de Azevedo com Rosa Maria Barreto Lira de Azevedo.

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