quarta-feira, 5 de março de 2014

Linha Norte: Um panorama da última ferrovia "ativa" de Pernambuco (Parte 1)

   São aproximados 135 km quilômetros entre a capital pernambucana e a divisa com a Paraíba que representam o trecho dentro do estado da Linha Tronco Norte de Pernambuco. A mesma que teve como embrião a Estrada de Ferro do Recife ao Limoeiro, foi construída pela Great Western no fim do século XIX, tendo sido seu primeiro trecho inaugurado em 1881 e em 1888 alcançou Timbaúba, o último município pernambucano pelo qual a linha passa. Em 1900, esta linha vinda de Pernambuco, encontrou-se com a Estrada de Ferro Conde D’Eu, da Paraíba, concretizando uma ligação de sucesso entre as porções sul e norte da Região Nordeste.
Trecho da Linha Norte entre Carpina e Paudalho (Imagem: Arquivo
Pessoal - Janeiro de 2014)
   A partir do Recife, por meio da Linha Norte, pode-se chegar no estado da Paraíba e no Ceará. Antes também se podia alcançar o Rio Grande do Norte, o que já não é mais possível, tendo em vista as más condições atuais do ramal que permitia isso, a partir da estação Paula Cavalcanti, na Paraíba.
   Com a progressiva desativação de nossas ferrovias, inicialmente do sistema de transporte de passageiros de longo percurso, importantes troncos ferroviários do Nordeste ficaram no abandono, como é o caso da Linha Tronco Centro (Recife – Salgueiro), abandonada logo após a privatização em 1997. A Linha Tronco Sul, que fazia a ligação entre o Recife e o estado de Alagoas, servindo como ligação entre Pernambuco e o Sul – Sudeste do país também entrou no abandono. A recuperação da mesma pela Transnordestina Logística S/A (TLSA), sua concessionária até então, trouxeram esperanças na reativação desse importante tronco ferroviário do Nordeste, fato que esbarrou nas cheias de 2010 e 2011 que destruíram o leito da via em vários pontos, tanto em Pernambuco como em Alagoas, onde as chuvas foram mais devastadoras ainda.
   A situação ficou a seguinte: Linha Centro totalmente abandonada, Linha Sul parcialmente afetada pelas chuvas aguardando novas definições do governo e, por sua vez, a Linha Norte, a única que continuou em operação, que, a essa altura (2010) já não era tão regular como nos tempos da RFFSA ou como no início da concessão privada. Era esta a única linha a oferecer condições de tráfego ainda, e a própria TLSA ainda operava a mesma com seus cargueiros.
   Apesar de a concessionária ainda ter mantido essa linha ativa, os cargueiros ficaram cada vez mais raros. Os mesmos eram mais comumente vistos passando à beira da Avenida Belmino Correia em São Lourenço, ou passando na estação Rodoviária, próximo ao pátio ferroviário de Lacerda, no Recife, este mesmo que também sempre tinha vagões ou locomotivas parados em suas linhas.
Composição da CBTU - Recife, o último trema transitar pela Linha Norte até então (Imagem: Arquivo Pessoal - Agosto de 2013)

   Hoje, o mato cresce sobre os trilhos da Linha Norte, que há meses já não é utilizada. A última composição a utilizar a linha foi da CBTU - Recife, em Agosto de 2013, em devolução da CBTU – João Pessoa. A mesma composição, formada pela locomotiva ALCO RS-8 número 6011, tracionando cinco carros pidner, encontrou muitas dificuldades para chegar ao Recife, o que demonstra já a falta de manutenção da Linha, que há mais tempo ainda não recebe trens cargueiros. Além desta composição, algumas semanas antes um trem da própria concessionária da linha, a TLSA, de capina química*, havia vindo até o Recife e retornado brevemente.

Trem de Capina Química, no momento em que passava em Tracunhaém
 (Imagem: Robson Santana)
*O Trem de Capina Química é uma composição especial de manutenção de via, que derrama sobre o leito da via permanente uma substância química que mata lentamente o mato sobre a mesma.
   De lá para cá, a Linha Norte, que é a última ainda ativa do estado, o que já não é um fato, tendo em vista as raríssimas composições que a utilizam, demonstra em seu panorama traços de abandono que representam uma verdadeira falta de respeito com o patrimônio público ferroviário nacional e com a memória de nossos trilhos.
Linha Norte próximo a parada de Mussurepe (Imagem: Arquivo pessoal - 2013)

Estação Ferroviária de São Lourenço. Hoje é
 utilizada como moradia. (Imagem: Arquivo pessoal - 2009)
   O senhor Roberto Cardoso, 55, garçom, que morou sempre próximo a Camaragibe, um dos municípios cortados pela Linha Norte, conta que era comum nas décadas de 1970 e 1980 verem-se autos de linha da RFFSA com o pessoal da mesma, sempre fazendo manutenção na via, limpando mato, trocando trilhos, dormentes. Ele também falou que o pátio da estação ferroviária de São Lourenço, hoje moradia, era sempre cheio de vagões. Em Camaragibe também o movimento era intenso no pátio. Tanto trens de passageiros, como os cargueiros eram bem mais frequentes à essa época.
   Nada disso mais se vê agora, e os trilhos da Linha Norte de Pernambuco continuam cada vez mais ficando esquecidos e despercebidos por onde passam.
Estação Ferroviária de Timbaúba. (Imagem: Arquivo pessoal - Março de 2013)

   Na segunda parte desta matéria sobre a Linha Norte de Pernambuco, o Projeto Memória Ferroviária de Pernambuco fará uma viagem pelos trilhos desta linha, mostrando vários de seus pontos de parada até Timbaúba.

3 comentários:

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  2. A linha norte de PE voltará a operar em 2016 com a conclusão das obras da Nova Transnordestina; já a linha Centro será oficialmente extinta, pois a Nova Transnordestina será paralela à mesma.No lugar da linha Sul será construída uma nova ferrovia ligando Recife a Salvaldor.

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  3. A linha centro é Tombada pela Fundarpe, no trecho Recife-Gravatá. O uso da linha original por trens de passageiros fomentaria o turismo no interior do estado. Caruaru, Pesqueira, Arcoverde, Afogados da Ingazeira e Salgueiro, dentre outras só teriam a ganhar com esse transporte.

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